Da valorização da coisa à coisificação do sujeito

Da valorização da coisa à coisificação do sujeito

Há séculos a psicanálise sinaliza a influência do contexto familiar e a relevância do meio social para a construção e estruturação do ser, enquanto sujeito, em uma sociedade. Também tem apontado as diversas formas de internalização de regras e introjeção de conteúdos, especulando de que modo essas questões reverberam na conduta do sujeito.

Atualmente vivemos em uma sociedade completamente pragmática, urgente e hedonista. Nesta sociedade é imprescindível "TER". É uma sociedade que produz, e exige sujeitos que produzam, é uma coletividade totalmente voltada para o consumo. O capitalismo mesclado com o virtual gerou, no sujeito, a necessidade de possuir. Esse aspecto, em particular, tem afetado drasticamente os laços afetivos e as inter-relações, criando um abismo emocional no sujeito que o confunde o impulsiona a se fundir à "coisa".

O vinculo afetivo e os laços emocionais são essenciais para a construção da subjetividade do sujeito e para sua maturação. Com a consolidação do virtual o isolamento pessoal tem se acentuado bastante, as influências midiáticas que sopram notícias por milésimos de segundos, fez as pessoas se aproximarem das telas e se distanciarem de si e do "Outro real", palpável, mas complexo e abstrato em sua essência, dando lugar a um "Outro" virtual e imaginário, fantasioso, que se apresenta como quer e quando quer, através das telas, mostrando-se de modo sensacionalista, gerando frustração e angustia. As mídias têm ganhado cada vez mais espaço para efetivação do seu espetáculo. Atualmente vivemos uma ditadura virtual, as mídias, impregnadas por pessoas de plástico, ditam as regras. Apontam o conceito do belo, dita a moda, o que deve ser feito, o que não deve ser feito, como deve ser feito e até como ser feito, o que comprar, o que possuir e como possuir. Só não dizem o porquê. A era moderna faz um apelo a satisfação imediata dos desejos, banalizando tudo que não é palpável. Habitamos a sociedade do reducionismo! É proibido falar de sentimentos, é proibido  sentir. A única coisa que é permitida na era moderna, é ofertar, trocar e comprar. Justamente porque o cenário atual é hostil à reflexão, assim como era hostil a sexualidade para Freud.

O abstrato foi deixado de lado, as pessoas não têm mais tempo para “banalidades”, dizem elas. Estão ocupadas demais, trabalhando para produzir e possuir. O meio social em que o sujeito está inserido também dialoga com suas questões inconscientes. Atualmente visualizamos um cenário catastrófico, totalmente absorvido pelo capitalismo. Um cenário social que prega o consumo, a urgência, o ter. Até mesmo algumas práticas psicológicas têm se adaptado a essa urgência, algumas abordagens mais pragmáticas ganham espaço na era moderna, justamente porque criou Esse fenômeno afeta o sujeito na totalidade.

Atualmente é difícil identificar quem é o sujeito e o que é a coisa. Até o próprio sujeito se confunde, como se ele fosse internalizando pouco a pouco, até o momento em que aquilo já faz parte do eu. Como Freud pontua no texto “O futuro de uma ilusão” quando ele aponta a religião como uma instituição normativa. E é isso, sabe? O sujeito vai se coisificando pouco a pouco, até que se coisifica por completo para se sentir “valorizado". É preciso ter, é preciso que se tenha algo para oferecer a esse outro. E  essa indiferença, esse distanciamento… se naturalizou. É natural! Poucos ficam indignados, porque se indignar, sentir, ou sair desse lugar de "coisificação", não é seguro na sociedade do consumo. O sujeito é o produto e o produto é o Deus. Então o sujeito se dispõe a consumir até sumir e então assumir que tudo isso não era nada.

Na clínica, é constante a busca por um apoio emocional, devido à fragilidade das relações e ao abismo emocional que essas conexões ou desconexões produzem no sujeito. Somos seres de relações, convivemos em sociedade. Por mais que tentem substituir a angústia ou um afeto, por algo, será frustrante. No meio do caos das emoções,  busca-se uma solução imediata, nessa busca desenfreada, perdem-se de si mesmos. Mas, nem tudo está perdido! A psicologia clínica, seja ela um espaço físico ou virtual,  está para auxiliar na resolução dos conflitos humanos.

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Psicóloga Vanessa Missena
Atuo em consultório particular com atendimento presencial e em plataformas online, promovendo saúde mental, bem estar psíquico e emocional. Meu foco de trabalho é voltado para atendimento em psicologia clínica, utilizando do método da Psicanálise, auxiliando nas diversas demandas apresentadas pelo sujeito.

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