Pais ausentes deixam filhos ‘órfãos’

Pais ausentes deixam filhos ‘órfãos’

Pais ausentes deixam filhos ‘órfãos’

Apesar da presença física dentro de casa, a vida moderna faz com que eles abandonem a responsabilidade de educar

A morte dos pais desestrutura qualquer família. Por mais que outras pessoas tentem, não conseguem preencher o vazio que ficou, especialmente, na cabeça e no coração dos filhos. No entanto, essa perda não ocorre apenas quando não há mais a presença física dos pais. Filhos podem estar “órfãos” mesmo com os pais vivos. São crianças, adolescentes e jovens que, apesar de terem os pais por perto, não sentem a presença deles no dia a dia.
 
São filhos que recebem comida, bebida, remédios, roupas, brinquedos, mas não têm, talvez, o principal para sua formação: a presença de um adulto que cuide dele e dê bons exemplos. Ou seja, essas mesmas crianças, adolescentes e jovens são criados, mas não educados. E as consequências dessa ausência de educação e de bons exemplos pipocam a todo momento em diversos pontos da cidade, do Estado, do País e do mundo.
 
São filhos como “Carlinhos”, como é conhecido um garoto de 13 anos, que circulava pela rua Araújo Leite no fim da tarde da última quinta-feira acompanhado de um outro adolescente. Eles caminhavam despreocupadamente quando foram abordados pela reportagem. “Carlinhos” contou que passa a maior parte do tempo na rua, “circulando”. Quando “dá vontade”, ele vai para a escola de manhã. Quando não, chama algum amigo para soltar pipa, brincar de bola ou para circular pela cidade.
 
Segundo ele, a mãe trabalha o tempo todo. Quando não está limpando a casa de outros, está limpando a deles, lavando roupa ou cuidando da comida. “Carlinhos” não soube dizer se o pai está empregado no momento. Ele acha que sim, pois o pai passa praticamente o tempo todo fora de casa, inclusive nos fim de semana.
 
Como o pai nunca está em casa e a mãe não tem tempo, “Carlinhos” diz que conversa pouco com eles, que passa mais tempo na escola ou na rua com os amigos, com quem ele diz que aprende “as coisas da vida”. Ele tem uma irmã mais velha que ele, o que significa que as brincadeiras são outras, os assuntos são outros e os amigos também.
 
Apesar da ausência dos pais no convívio e na educação, “Carlinhos” fala que não sente falta, justamente porque tem os amigos para suprir essa carência. “Eu converso com eles. A gente se entende. Tudo o que a gente precisa aprender, aprende na rua, na convivência com os amigos”, comenta.
 
Para a psicoterapeuta Carmen Neme, a ausência dos pais na educação dos filhos é motivo de preocupação, principalmente quando o filho ainda é uma criança ou adolescente, que é quando o caráter começa a ser moldado pelos exemplos que vêm da convivência com a família ou amigos.
 
Na avaliação dela, embora a inserção no mercado de trabalho tenha sido uma conquista importante para a mulher, por outro lado deixou uma lacuna na convivência com os filhos. “Isso trouxe uma alteração na estrutura e no funcionamento das famílias. Nem a escola e nem a sociedade estavam preparadas para suprir essa ausência”, opina.
 
Wanussa Camilo, 30 anos, foi uma dessas mulheres que conquistaram seu espaço no mercado de trabalho e agora tem pouco tempo para ficar com os filhos. Com o caçula Vitor, de 1 ano, no colo, ela passeava pelos corredores do shopping na semana passada. Uma cena rara, segundo ela. “Não tenho costume de sair de casa”, revela.
 
Sempre que pode, Wanussa diz que procura brincar com os filhos, principalmente com o menino. Ela também tem uma filha, Gabrielle, de 10 anos, mas como a menina já é quase uma adolescente, ela não consegue acompanhar mais suas brincadeiras, que são mais eletrônicas. Um de seus passatempos preferidos é ficar no computador, comunicando-se pelo Orkut, MSN e Facebook. 

Pelo Facebook

Para a psicóloga Gretta Rodrigues de Souza, parte dessa falta de convivência que existe entre alguns pais e filhos pode ser explicada também porque tem pais que acham normal essa falta de compartilhamento do tempo com os filhos por não terem vivenciado isso quando eram crianças.
 
“Tem mães que ficam sabendo o que o filho pensa pelo Facebook. Isso é muito sério. Essa coisa do toque, do olho no olho, da conversa franca, de um relacionamento real com o filho é importantíssimo”, afirma.
 
“A base de sustentação para a vida é formada na infância. É isso que nos dá segurança, confiança, autoestima, nos prepara para tomar decisões e nos impõe limites”, justifica.

Intenso enquanto dure

Uma campanha publicitária que fez muito sucesso na TV nos anos 1980 já dizia que “não basta ser pai, tem que participar”. Ela mostrava o filho acordando o pai para acompanhá-lo numa partida de futebol. Depois de permanecer um tempo no banco, para desapontamento do pai, o menino é chamado pelo treinador. Ele entra em campo, sob forte chuva, e em um lance da partida sofre uma entrada dura do adversário. O pai entra em campo, passa uma pomada na perna do filho que, recuperado, faz o gol da vitória e corre para abraçar o pai.
 
A história é simples e improvável, mas mesmo assim emociona e dá bem a dimensão de como a participação do pai é importante e é reconhecida pelos filhos. Seguindo basicamente esta lição, a psicoterapeuta infantil e de família Marly Rodrigues Bighetti Godoy diz que não basta estar o tempo todo com o filho, é preciso interagir com ele.
 
De acordo com ela, mesmo quando se tem pouco tempo para ficar com os filhos, esses momentos podem ser bem aproveitados. “É uma questão de usar esse tempo com qualidade. Mesmo quando os pais não moram juntos é possível transformar o pouco tempo de convivência em algo especial, para se conhecerem melhor. A criança vai se sentir amparada. Ela vai saber que poderá contar com o pai ou a mãe sempre que precisar”, explica.
 
Marly diz que em alguns lares as pessoas convivem debaixo do mesmo teto, mas pouco se falam e, assim, não estabelecem uma relação de afeto. É como se fossem estranhos vivendo dentro de um mesmo espaço. “Quando falo de intensidade no relacionamento não me refiro ao tempo que se está junto, mas de como esse tempo é usado.”
 
Terezinha Maffei, 40 anos, operadora de caixa, tem pouco tempo para estar com os filhos, mas quando pode, procura não desperdiçar. Na semana passada, durante um dia de folga, ela passeava com as filhas Ana Laura, 10 anos, e Vanessa, 20 anos, no Bauru Shopping.
 
Por causa da profissão, ela conta que dificilmente passeia com as filhas, pois trabalha nos fins de semana. A tarefa cabe mais ao pai, que deixou o emprego em um supermercado e agora tem tempo para passear aos sábados e domingo, especialmente com a filha mais nova.
 
Ana Laura conta que costumam ir ao zoológico, horto florestal, cinema, restaurantes entre outros locais. A mãe diz que usa o tempo livre para cuidar da casa. Com isso, sobra pouco para os passeios, embora reconheça a importância dessa convivência com os filhos como forma de se aproximar deles e viver momentos descontraídos.

Fonte: jcnet - Adilson Camargo

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